Luar no olhar

A Fotografia na Oftalmologia Pediátrica!

 

Sabia que uma simples fotografia pode ajudar a diagnosticar patologia ocular na criança?

 

Provavelmente já teve oportunidade de ler, ouvir ou testemunhar uma ou outra história sobre como através de uma fotografia se diagnosticou, por uma anomalia no brilho vermelho da pupila, uma doença ocular que ameaçando a visão (e eventualmente a vida) da criança foi tratada e curada, graças à sua detecção precoce.

A fotografia difundiu-se no nosso quotidiano, sendo atualmente de fácil acesso e de alta qualidade pela disseminação de câmeras com objetivas cada vez melhores nos nossos telemóveis. Assim, tiramos cada vez mais e melhores fotografias, sendo que algumas delas acabam por ser compartilhadas através de grupos digitais de amigos e nas redes socais. Prestar atenção a alguns detalhes pode contribuir com algumas pistas para a suspeita de patologia ocular, sinalizada pelo reflexo do flash da câmera na retina conhecido como “reflexo vermelho” que simula o teste clínico do Luar Róseo, usado na consulta de Oftalmologia Pediátrica.

 

O LUAR …

O reflexo vermelho é produzido quando o flash de uma câmera ilumina a retina e a coróide que são altamente vascularizadas e como tal apresentam uma tonalidade vermelha-alaranjada. Assim, caso os olhos estejam alinhados com a câmera e a cor do reflexo de ambos for vermelho, na maioria dos casos isso é uma boa indicação de que os meios ópticos até à retina (córnea, cristalino e vítreo) estão desobstruídos e saudáveis.

Um “reflexo vermelho anormal” é um reflexo branco, amarelo ou preto (ausência de luar) em um ou ambos os olhos. Isso pode ser um sinal de alerta para a presença de uma doença ocular, que deverá ser diagnosticada por um oftalmologista pediátrico.

 

Contudo devemos certificar-nos que a fotografia foi tirada em condições ideais antes de classificar um Luar como anormal. Assim sendo:

    1. A criança está a olhar diretamente para a lente da câmera
    2. O flash da câmera está ligado e o fundo está mal iluminado
    3. A opção de “eliminar olhos vermelhos” da câmera está desligada (OFF)

 

Apesar do que foi escrito nem sempre há motivos para alarme… Muitas vezes, um reflexo menos vivo ou esbatido pode não simbolizar anormalidade. A criança pode simplesmente estar a fixar um ponto à direita da câmera; e o reflexo esbranquiçado ocorre no olho esquerdo porque o nervo óptico está perfeitamente alinhado com a câmera e o flash… Daí que sejam fundamentais os 3 pressupostos anteriormente referidos.

Por outro lado a causa mais comum para um Luar Róseo anormal ou assimétrico é o erro refractivo, como uma alta miopia, astigmatismo ou hipermetropia. Um erro na refração significa que, devido ao seu formato, o olho não refrata a luz adequadamente, de modo que a imagem que vemos está desfocada. Nestes casos o problema é corrigido com o uso de óculos, evitando ou atenuando o desenvolvimento de uma ambliopia na criança.

É frequente também os pais suspeitarem de estrabismo pelo desalinhamento dos eixos visuais entre os dois olhos, que quando é verdadeiro pode cursar com um Luar Róseo mais turvo unilateralmente (do olho estrábico). O tratamento para o estrabismo passa regra geral pelo uso de óculos, penalização óptica (pensos oculares) e cirurgia. Se detectado e tratado precocemente, o estrabismo geralmente pode ser corrigido com excelentes resultados.

 

Sinal de Perigo…

Em ocasiões menos frequentes, mas em cujo diagnóstico não pode ser atrasado, o reflexo anormal pode sinalizar doenças oculares mais perigosas.

Um Luar Branco que cobre a maior parte da pupila, conhecido como leucocoria, é geralmente mais preocupante e um sinal para várias doenças oculares de maior gravidade, incluindo catarata, doenças vasculares e descolamento da retina. É sempre fundamental nestes casos excluir a presença de um retinoblastoma, uma neoplasia ocular infantil rara, mas grave. Quando detectado e tratado precocemente, o retinoblastoma é curável em 95% dos casos.

Um Luar Amarelo pode ser um sinal da doença de Coats, uma doença dos vasos sanguíneos da retina, que ficam mal-formados, tortuosos e incompetentes, causando exsudação, edema e destruição celular que pode causar perda de visão progressiva e descolamento da retina. Ocorre principalmente em meninos com menos de 10 anos de idade e geralmente afeta apenas um olho. O tratamento pode incluir cirurgia a laser, crioterapia ou, em estádios mais avançados da doença, cirurgia mais invasiva.

 

Quando Procurar ?

A inspeção da presença, qualidade e simetria do Luar Róseo é rotineiramente realizada pelo Pediatra e Médico de Família nas consultas programadas de saúde infantil (utilizando o oftalmoscópio), sendo igualmente registado no Boletim de Saúde Infantil. É uma manobra clínica a que todos os recém-nascidos são submetidos antes da alta hospitalar e na primeira consulta médica em ambulatório. Quando anormal o bebé é encaminhado para consulta de Oftalmologia Pediátrica.

Em doenças particulares (já aqui referidas) a sua instalação pode ocorrer mais tardiamente durante os primeiros anos de vida, isto é cursarem com um Luar normal ao nascimento que apenas mais tarde se altera. Dai que a atenção prestada às fotografias possa ser de grande ajuda na sua deteção precoce e procura atempada de um Oftalmologista Pediátrico… Uma imagem que vale por mil palavras…

 

Caso se detecte um reflexo anormal ou haja dúvidas, marque uma consulta!

Fontes: Academia Americana de Oftalmologia – Dicas de prevenção (escrito em inglês) ; Associação Americana de Oftalmologia Pediatrica e Estrabismo – Termos do olho (escrito em inglês)

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